Saúde

O coração também entra na menopausa

Palpitações, cansaço e falta de ar costumam ser atribuídos aos hormônios ou ao estresse. Mas, em alguns casos, podem ser sinais de uma arritmia que aumenta o risco de AVC.

A menopausa costuma ser lembrada pelos fogachos, pelas noites mal dormidas e pelas mudanças de humor. Mas existe uma transformação silenciosa que quase nunca entra na conversa entre amigas, nas redes sociais ou até mesmo no consultório: o coração também sente a chegada dessa nova fase.

Com a queda do estrogênio, hormônio que acompanhou a mulher durante toda a vida reprodutiva, o organismo passa por uma verdadeira reorganização. O metabolismo muda, a gordura abdominal tende a aumentar, o colesterol pode subir e a qualidade do sono costuma piorar. Ao mesmo tempo, o sistema cardiovascular perde parte da proteção natural que o estrogênio oferecia aos vasos sanguíneos e ao músculo cardíaco.

Não por acaso, é justamente nessa fase que muitas mulheres começam a perceber o coração “diferente”. Algumas sentem palpitações. Outras relatam um cansaço que não passa, falta de ar para atividades simples ou uma sensação constante de fraqueza. Como esses sintomas também são comuns durante o climatério, é frequente que sejam atribuídos apenas aos hormônios, ao estresse ou à ansiedade.

Mas nem sempre é só isso.

“Durante a menopausa, muitas mulheres passam a apresentar alterações no ritmo do coração que merecem investigação. Nem toda palpitação é ansiedade. Em alguns casos, ela pode indicar uma arritmia importante, como a fibrilação atrial, que aumenta significativamente o risco de AVC quando não é diagnosticada e tratada”, explica Hugo Bellotti, diretor do Serviço de Arritmia e Estimulação Cardíaca do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

O que acontece com o coração na menopausa?

O estrogênio exerce um papel importante na saúde cardiovascular. Além de ajudar a proteger os vasos sanguíneos, ele também contribui para a estabilidade do sistema elétrico do coração.

Quando seus níveis diminuem, o organismo fica mais suscetível a alterações metabólicas, inflamação e pequenas cicatrizes no músculo cardíaco, um cenário que favorece o surgimento de arritmias.

Entre elas, a mais preocupante é a fibrilação atrial, considerada a arritmia sustentada mais comum do mundo. Nessa condição, os átrios passam a bater de forma rápida e desorganizada, favorecendo a formação de coágulos que podem migrar para o cérebro e provocar um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Estudos indicam que aproximadamente uma em cada quatro mulheres poderá desenvolver fibrilação atrial ao longo da vida.

Quando o sintoma parece ansiedade

Um dos maiores desafios é que a fibrilação atrial nem sempre aparece da mesma forma nas mulheres.

Enquanto muitos homens relatam a sensação de coração acelerado ou “disparado”, elas frequentemente apresentam sintomas mais discretos e inespecíficos, como fadiga intensa, falta de ar, redução da disposição, tonturas ou uma sensação de fraqueza persistente.

“O problema é que esses sintomas costumam ser confundidos com o próprio climatério ou até com questões emocionais. Isso faz com que muitas pacientes demorem para procurar ajuda e recebam o diagnóstico apenas quando a doença já trouxe complicações”, alerta Bellotti.

Quando procurar um cardiologista?

Nem toda palpitação significa uma doença do coração. Mas alguns sinais merecem atenção, principalmente durante a menopausa:

  • palpitações frequentes;
  • sensação de coração acelerado ou irregular;
  • cansaço intenso sem explicação;
  • falta de ar em atividades habituais;
  • tonturas ou desmaios;
  • queda importante da disposição.

Se esses sintomas aparecerem de forma repetida, vale conversar com um cardiologista. Em muitos casos, exames simples, como o eletrocardiograma ou a monitorização do ritmo cardíaco, conseguem esclarecer a causa.

Cuidar do coração também faz parte da menopausa

A expectativa de vida da mulher aumentou. Hoje, estima-se que existam cerca de 30 milhões de brasileiras vivendo o climatério ou a menopausa, e muitas passarão quase um terço da vida após essa fase.

Por isso, falar sobre menopausa também é falar sobre saúde cardiovascular.

Assim como cuidar dos ossos, da alimentação e da saúde mental, olhar para o coração deve fazer parte dessa nova etapa.

Porque nem todo sintoma da menopausa é apenas um efeito dos hormônios. Às vezes, ele é o jeito que o coração encontra para pedir atenção.

Imagens: Divulgação

Mais em: Dr. Hugo Bellotti e Rojas Comunicação

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