Fotografia

Morte e vida, vida e morte: entre começos e recomeços, no eterno processo de construção do “não absoluto”

Édouard Glissant dizia que não há começo absoluto. Os começos fluem de todo lado, como rios em errância. Tal reflexão adequa-se perfeitamente ao retrato de uma sociedade inquieta, em constante movimento, que vê seus trajetos sendo transmutados em um incessante processo de construção e reconstrução. Assim como nós. Assim como a arte.

Como reflexo de quem somos e da sociedade que construímos, a arte também é um processo de composição ininterrupto, sem um começo absoluto e sem um fim palpável para a dimensão utópica que ela ocupa. Seu movimento está nas mãos que concebem, no mundo ao seu redor, no contexto que a acompanha, nos múltiplos e dispares olhos, que contemplam e idealizam imensuráveis perspectivas de memórias e interpretações reverberadas e transmutadas o tempo todo. Assim como as águas de um rio que fluem livremente sem um rumo previamente determinado, as grandes obras nunca estão plenamente finalizadas. Através de sua própria poética, elas têm continuamente o potencial de nos surpreender com um novo detalhe que percebemos quando as observamos com um outro olhar, uma nova percepção, uma outra intensidade. Afinal, também estamos constantemente inacabados.

É isso que representa as obras de Bruno Matteo, que estão presentes nessa exibição e ficarão expostas durante os meses de junho e julho. Em uma aproximação entre dois conceitos que parecem ser alheios, mas estão conectados pela concepção do autor de que o começo e o fim não são absolutos, os retratos celebram a potência de tudo aquilo que não é inflexível.

Como símbolo de tudo aquilo que é vivo e está em um processo inacabado de transformação, o retrato das águas cristalinas e inquietas do Rio Sucuri, em Bonito (Mato Grosso do Sul – Brasil), exprime a beleza presente na liberdade de não ser absoluto e se estar sempre fluindo, de encontro ao incerto, seguindo o percurso necessário para finalmente chegar ao ponto em que se pode desaguar.

Seria a morte, por sua vez, um fim absoluto? Ou apenas um recomeço que tememos, como a tudo aquilo que é desconhecido? Como conjecturava Epicuro, antes mesmo de Cristo, “o mais espantoso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais”.

No retrato que eterniza o cemitério Bonaventure, em Savannah (Geórgia – EUA), vários repousam, guardando consigo a elucidação da indagação que nos acompanha durante todo o ciclo da vida nesse mundo: seria a morte o fim? Epicuro acreditava que não há nada a temer na morte. Eu também acredito. No fim das contas, nem mesmo a morte pode ser considerada um fim absoluto e incontestável.

Seja nesse mundo, ou no próximo. Nos leitos dos rios ou das sepulturas. Ou nas obras de arte. Estamos em constante movimento, entre começos e recomeços, em direção ao desconhecido. Como rios em errância.

SERVIÇO

Drosophyla Madame Lili

Endereço: Rua Nestor Pestana, 163 Consolação, São Paulo-SP

Quando: de 18.junho a 07.julho de 2021

Imagens: Divulgação

Mais em: Bruno Matteo

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