Por William Xavier* CEO da Integrance – Finance & Consulting
O tratado abrange temas estratégicos como facilitação de investimentos, compras governamentais, comércio de serviços, barreiras técnicas, defesa comercial e regras de concorrência, entre outras.
Após mais de 25 anos de negociações, o Acordo Mercosul–União Europeia foi finalmente assinado em janeiro de 2026, consolidando um dos mais relevantes tratados de livre comércio e parceria estratégica do mundo. O pacto marca um avanço histórico nas relações entre os dois blocos e inaugura uma nova fase de integração econômica, com impactos profundos para o comércio internacional, os investimentos e a estrutura produtiva dos países envolvidos, em especial, o Brasil.
O acordo tem como objetivo central aproximar economias complementares, reduzindo barreiras comerciais, ampliando o fluxo de bens, serviços e capitais, além de estabelecer regras mais claras e previsíveis para empresas que operam ou pretendem operar entre os dois mercados. Juntos, Mercosul e União Europeia representam mais de 700 milhões de consumidores e uma parcela expressiva do PIB global.
Entre os pontos mais relevantes está a redução de tarifas de importação para mais de 90% dos produtos comercializados entre os blocos, com prazos de desgravação (redução gradual de impostos de importação) que variam conforme o setor e o grau de sensibilidade de cada mercado. Em muitos casos, as tarifas serão eliminadas de forma gradual ao longo de períodos que podem chegar a até 15 anos, permitindo uma adaptação progressiva das cadeias produtivas.
O tratado também avança em temas estratégicos como facilitação de investimentos, compras governamentais, intercâmbio de serviços, propriedade intelectual, comércio digital e medidas sanitárias e fitossanitárias. Ao harmonizar regras e ampliar a segurança jurídica, o acordo reduz custos operacionais e cria um ambiente mais favorável à internacionalização das empresas brasileiras.
Outro ponto de destaque é a ampliação do acesso de empresas do Mercosul aos mercados públicos europeus, historicamente mais fechados. Isso abre oportunidades relevantes para setores de engenharia, tecnologia, infraestrutura e serviços especializados.
Abrangência e setores beneficiados
Do ponto de vista brasileiro, a expectativa é de expansão significativa das exportações agrícolas, especialmente de produtos como soja, carnes bovina e de frango, açúcar e etanol, que passam a ter acesso mais competitivo ao exigente mercado europeu. Esse movimento tende a fortalecer o agronegócio, um dos pilares da economia nacional, ao mesmo tempo em que impõe padrões mais elevados de sustentabilidade e rastreabilidade.
Por outro lado, o acordo facilita a importação de produtos industriais e bens europeus premium, como máquinas, equipamentos, automóveis, insumos tecnológicos, fármacos e produtos de alto valor agregado, com custos menores. Isso pode contribuir para a modernização do parque industrial brasileiro, aumento da produtividade e maior integração às cadeias globais de valor.
Setores como tecnologia, energia, serviços financeiros, logística e economia digital também se beneficiam do novo cenário, especialmente pela previsibilidade regulatória e pela ampliação do intercâmbio de serviços entre os blocos.
Estrutura, desafios e controvérsias
Apesar dos avanços, o acordo não está isento de desafios. A sua implementação exigirá adequações regulatórias, tributárias e operacionais por parte das empresas, além de investimentos em compliance, governança e controles internos. Para muitas organizações, sobretudo médias e pequenas, a adaptação às normas técnicas e ambientais europeias será um fator crítico de sucesso.
Além disso, persistem controvérsias e resistências internas, principalmente na Europa. Países e setores ligados à agricultura demonstram preocupação com a concorrência de produtos sul-americanos, enquanto questões ambientais e de sustentabilidade seguem no centro do debate político europeu. Esses fatores explicam, em parte, a longa duração das negociações e indicam que o acompanhamento do acordo continuará sendo essencial mesmo após sua assinatura.
O Acordo Mercosul–União Europeia representa uma oportunidade histórica para o Brasil, mas seus benefícios não serão automáticos. As empresas que desejam aproveitar esse novo ambiente precisarão de planejamento, estrutura financeira sólida, governança eficiente e sistemas preparados para operar em um contexto internacional mais complexo e competitivo.
Mais do que um tratado comercial, estamos diante de uma transformação estrutural na forma como o Brasil se conecta ao mundo. Cabe agora ao setor privado, com apoio técnico e estratégico adequado, transformar esse acordo em crescimento sustentável, geração de valor e competitividade de longo prazo.
Imagens: Divulgação – Foto abertura ApexBrasil
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